sábado, 18 de dezembro de 2010


 Este inferno de amar

Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs aqui n'alma... Quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei não me lembro: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! Despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... Dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? Eu que fiz? - não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei.
                                                  
                                                       Almeida Garrett

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A cronologia da vida de Almeida Garrett:



1799 Almeida Garrett nasce no Porto.
1809 Parte para a ilha Terceira por causa das invasões francesas. Aí recebe de um tio, bispo de Angra do Heroísmo, uma educação religiosa e clássica.
1816 Matricula-se no curso de Direito em Coimbra. Adere às ideias liberais e começa a escrever algumas peças de teatro.
1820 Escreve a tragédia Catão, representada em Lisboa no ano seguinte.
1821 Já formado, casa com Luísa Midosi e publica o Retrato de Vénus, que lhe valeu um processo judicial e um julgamento de que foi absolvido.
1823 Com a Vila-Francada, exila-se na Inglaterra, onde contacta com a literatura romântica (Byron e Walter Scott).
1824 Parte para o Havre, em França, como correspondente.
1825 Publica em Paris Camões.
1826 Publica ainda em Paris D. Branca. Regressa a Portugal após a outorga da Carta Constitucional, dedicando-se ao jornalismo político.
1828 Exila-se de novo em Inglaterra devido à aclamação de D. Miguel.
1830 Inicia a compilação do Romanceiro.
1832 Integra-se no exército liberal de D. Pedro IV, desembarca no Mindelo e participa no cerco do Porto, escrevendo aí a primeira pare do Arco de Santana.
1834 Após a guerra civil, Almeida Garrett é nomeado cônsul geral em Bruxelas. Estuda a língua e a literatura alemãs (Herder, Schiller e Goethe).
1836 Regressa a Portugal e separa-se de Luísa Midosi, que em Bruxelas o teria traído. Passos Manuel encarrega-o de reorganizar o teatro nacional, nomeando-o inspector dos teatros.
1837 Perde o cargo de inspector dos teatros por demissão de Passos Manuel. Apaixona-se por Adelaide Deville, que morrerá em 1841 e de quem terá uma filha, Maria Adelaide.
1838 Publica Um Auto de Gil Vicente.
1841 Publica O Alfageme de Santarém.
1842 Costa Cabral instaura um governo de ditadura, contra o qual Garrett luta na oposição parlamentar.
1843 Escreve o drama Frei Luís de Sousa que será publicado no ano seguinte. Começa também a escrever o romance Viagens na Minha Terra, que publica em folhetins na Revista Universal Lisbonense.
1845 Publica o romance Arco de Santana e a colectânea de poemas Flores sem Fruto. Inicia-se a paixão por Rosa Montufar, a Viscondessa da Luz.
1846 É publicado em dois volumes o romance Viagens na Minha Terra.
1850 É representado no Teatro Nacional o drama Frei Luís de Sousa.
1851 É nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros e recebe o título de Visconde e Par do reino. Conclui a compilação do Romanceiro.
1853 Publica Folhas Caídas, colectânea poética que causou escândalo na época.
1854 Almeida Garrett morre a 9 de Dezembro em Lisboa.

Você sabia?


Você sabia?
Que Almeida Garrett, embora tenha se dedicado a vários gêneros literários, foi na poesia e no teatro que mais ganhou destaque. Suas obras “Camões” e “Frei Luis de Sousa” ganharam grande importância no mundo literário.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Poema



Não te Amo


Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma. 
      E eu n’alma - tenho a calma, 
      A calma - do jazigo. 
      Ai! não te amo, não. 

Não te amo, quero-te: o amor é vida. 
      E a vida - nem sentida 
      A trago eu já comigo. 
      Ai, não te amo, não! 

Ai! não te amo, não; e só te quero 
      De um querer bruto e fero 
      Que o sangue me devora, 
      Não chega ao coração. 

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela. 
      Quem ama a aziaga estrela 
      Que lhe luz na má hora 
      Da sua perdição? 

E quero-te, e não te amo, que é forçado, 
      De mau, feitiço azado 
      Este indigno furor. 
      Mas oh! não te amo, não. 

E infame sou, porque te quero; e tanto 
      Que de mim tenho espanto, 
      De ti medo e terror... 
      Mas amar!... não te amo, não. 

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

poema

Víbora
Como a víbora gerado,
No coração se formou
Este amor amaldiçoado
Que à nascença o espedaçou.

Para ele nascer morri;
E em meu cadáver nutrido,
Foi a vida que eu perdi
A vida que tem vivido.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Almeida Garrett

Almeida Garrett

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu em 1799 no Porto e faleceu em Lisboa em 1854 .
É provavelmente o escritor português mais completo de todo o século XIX, porquanto nos deixou obras-primas na poesia, no teatro e na prosa, inovando a escrita e a composição em cada um destes géneros literários.

A vida 
Na infância recebeu uma formação religiosa e clássica.
Concluiu o curso de Direito em Coimbra, onde aderiu aos ideais do liberalismo.
Em 1823, após a subida ao poder dos absolutistas, é obrigado a exilar-se em Inglaterra onde inicia o estudo do romantismo (inglês), movimento artístico-literário então já dominante na Europa.
Regressa em 1826 e passa a participar na vida política; mas tem de exilar-se novamente em Inglaterra em 1828, depois da contra-revolução de D. Miguel. Em 1832, na Ilha Terceira, incorpora-se no exército liberal de D. Pedro IV e participa no cerco do Porto.
Exerceu funções diplomáticas em Londres, em Paris e em Bruxelas. Após a Revolução de Setembro (1836) foi Inspector Geral dos Teatros e fundou o Conservatório de Arte Dramática e o Teatro Nacional.
Com a ditadura cabralista (1842), Garrett é posto à margem da política e inicia o período mais fecundo da sua produção literária. Durante a Regeneração (1851) recebe o título de visconde e é nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros.

A obra 
Tem o grande mérito de ser o introdutor do Romantismo em Portugal ao nível da criação textual - processo que iniciou com os poemas Camões (1825) e D. Branca (1826).
Ainda no domínio da poesia são de destacar o Romanceiro (recolha de poesias de tradição popular cujo 1.º volume sai em 1843), Flores sem Fruto (1845) e a obra-prima da poesia romântica portuguesa Folhas Caídas (1853) que nos dá um novo lirismo amoroso.
Na prosa, saliente-se O Arco de Sant'Ana (1.º vol. em 1845 e 2.º em 1851), romance histórico, e principalmente as suas célebres Viagens na Minha Terra (1846). Com este livro, a crítica considera iniciada a prosa moderna em Portugal.
E quanto ao teatro, deve mencionar-se Um Auto de Gil Vicente (1838), O Alfageme de Santarém (1841) e sobretudo o famoso drama Frei Luís de Sousa (1844).

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Seus Olhos

Seus olhos - que eu sei pintar
O que os meus olhos cegou –
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.

Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi
.

      
Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas